Fascite Plantar em Crianças e Adolescentes: Existe?

📅 Publicado em 26/07/2026 · Revisão editorial: julho de 2026

A busca por fascite plantar em crianças cresce toda vez que um filho começa a mancar depois do treino ou reclama de dor no calcanhar ao levantar da cama. A resposta honesta é: a fascite plantar até pode acontecer nessa idade, mas é rara. Na enorme maioria dos casos entre 8 e 15 anos, a dor no calcanhar tem outro nome — doença de Sever, também chamada de apofisite do calcâneo. Confundir as duas condições leva a tratamentos errados e a preocupações desnecessárias. Neste artigo, reunimos o que as fontes médicas realmente dizem sobre a diferença entre elas, quais sinais merecem atenção imediata e por que a avaliação de um pediatra ou ortopedista pediátrico é o passo que não pode ser pulado.

“Ao pesquisar sobre dor no calcanhar para este blog, percebi que os conteúdos em português sobre crianças quase sempre repetem o mesmo erro: tratam qualquer dor no calcanhar infantil como fascite plantar. Ao ir atrás dos artigos científicos, a distinção ficou clara — e é justamente essa distinção que muda o que os pais devem fazer.”

Beatriz Lessa, autora do Sem Fascite
Escrito por Beatriz Lessa — criadora de conteúdo sobre saúde e bem-estar dos pés. Não sou médica nem fisioterapeuta: pesquiso, leio as fontes originais e traduzo o que a literatura médica diz para uma linguagem que qualquer pai ou mãe consiga entender. Todas as afirmações clínicas deste texto estão referenciadas ao final. Conheça meu trabalho →
⚠️ Aviso importante — leia antes de continuar: Este conteúdo é informativo, baseado nas fontes médicas citadas ao final, e não substitui a avaliação de um pediatra ou ortopedista pediátrico. Dor no calcanhar em criança e adolescente nunca deve ser autotratada em casa sem diagnóstico: causas raras porém sérias, como fraturas por estresse, cistos ósseos e infecções, se manifestam exatamente com o mesmo sintoma. Se seu filho reclama de dor no calcanhar, o primeiro passo é marcar uma consulta. Este blog participa do programa de afiliados da Amazon: se você comprar por algum link, podemos receber uma pequena comissão, sem custo adicional para você. Nenhum produto é recomendado aqui como substituto de avaliação profissional.

Fascite plantar em crianças existe? A resposta direta

Sim, existe — mas é incomum, e essa é uma informação que muda completamente a conversa dentro do consultório. A fascite plantar é, na origem, um problema de sobrecarga acumulada. A fáscia plantar é uma faixa espessa de tecido conjuntivo que se estende do calcâneo até a base dos dedos, funcionando como uma corda que sustenta o arco do pé. Quando essa estrutura recebe carga excessiva por meses ou anos, ela desenvolve microlesões e alterações degenerativas no ponto onde se insere no osso do calcanhar. É por isso que a condição é tão associada a adultos entre 40 e 60 anos, a corredores de longa data e a pessoas que passam o dia inteiro de pé.

Uma criança de nove anos simplesmente não teve tempo biológico de acumular esse desgaste. Além disso, os tecidos moles infantis são mais elásticos e se adaptam melhor a cargas do que os de um adulto. Isso não torna a fascite plantar impossível na infância, mas coloca a condição bem no fim da lista de suspeitos quando o assunto é dor no calcanhar antes da adolescência.

Existe outro motivo, ainda mais importante, para a fascite plantar não ser a primeira hipótese: no pé de uma criança em crescimento existe uma estrutura que o pé adulto não tem — a placa de crescimento do calcâneo, tecnicamente chamada de apófise calcânea. E é ali, e não na fáscia plantar, que a dor costuma nascer.

Doença de Sever: a verdadeira campeã da dor no calcanhar infantil

A doença de Sever, cujo nome técnico é apofisite do calcâneo, é descrita na literatura médica como a principal causa de dor no calcanhar em pacientes pediátricos entre 8 e 15 anos1. Apesar do nome assustador, ela não é uma doença no sentido de infecção ou de algo que danifica o osso permanentemente. Trata-se de uma inflamação por tração na cartilagem de crescimento do osso do calcanhar.

O que é a apófise do calcâneo e por que ela dói

Enquanto a criança cresce, o calcâneo ainda não é um bloco único de osso: ele tem uma faixa de cartilagem na parte de trás, por onde o osso vai se alongando. O tendão de Aquiles se insere justamente nessa região. Durante os estirões de crescimento, o osso cresce mais rápido do que a musculatura da panturrilha consegue acompanhar, o que deixa o tendão de Aquiles relativamente encurtado e mais tenso. Cada corrida, salto ou frenagem transmite essa tensão diretamente para a placa de crescimento, que é a área mais frágil do conjunto. O resultado é inflamação e dor.

Quem é mais afetado

Crianças em fase de estirão são as mais vulneráveis, com o período de risco começando por volta dos oito anos e se estendendo até cerca dos 13 anos nas meninas e dos 15 nos meninos2. Os principais fatores de risco descritos são obesidade e alto volume de atividade física, sobretudo em esportes de impacto como futebol, atletismo, basquete, ginástica, tênis e balé1. Tendão de Aquiles encurtado, pé plano e pé cavo também aparecem como fatores associados.

A frequência é maior do que muitos pais imaginam. Um estudo holandês que revisou mais de 16 mil prontuários de clínica geral encontrou uma incidência de 3,7 casos a cada mil pacientes registrados entre 6 e 17 anos — e os próprios autores observam que o número real provavelmente é maior, já que muitos casos nem chegam ao consultório3.

Como a doença de Sever se manifesta no dia a dia

Os sinais mais típicos são dor na parte de trás ou embaixo do calcanhar, mancar, andar na ponta dos pés para evitar apoiar o calcanhar, dificuldade em correr e saltar, cansaço nas pernas e dor quando as laterais do calcanhar são apertadas4. Um detalhe que ajuda muito os pais: a dor costuma aparecer ou piorar durante e logo depois do treino, e melhorar com o repouso — um padrão bem diferente da fascite plantar clássica.

Fascite plantar ou doença de Sever: como diferenciar

Nenhuma tabela substitui um exame clínico, mas conhecer as diferenças ajuda os pais a descreverem melhor o sintoma na consulta — e isso encurta o caminho até o diagnóstico correto. Se você quiser se aprofundar no raciocínio de diferenciação entre condições parecidas, vale a leitura do nosso comparativo sobre fascite plantar ou tendinite.

pediatra examinando o calcanhar de uma criança ao lado do pai no consultório
Característica Doença de Sever (apofisite) Fascite plantar
Idade típica 8 a 15 anos, durante o estirão Adultos, principalmente 40 a 60 anos
Onde dói Atrás e embaixo do calcanhar, na placa de crescimento Sola do pé, na borda interna do calcanhar
Quando piora Durante e depois da atividade física Nos primeiros passos da manhã ou após ficar sentado
Teste característico Dor ao comprimir as laterais do calcanhar Dor à palpação do ponto medial do calcâneo
Estrutura envolvida Cartilagem de crescimento do calcâneo Fáscia plantar (tecido conjuntivo)
Evolução Autolimitada; cessa com o fechamento da placa Pode se arrastar por meses ou anos sem tratamento

Um ponto que merece destaque: a doença de Sever pode aparecer nos dois pés ao mesmo tempo. Em um estudo com atletas de base, a maioria dos casos foi unilateral, mas houve casos bilaterais5. Ou seja, dor nos dois calcanhares em uma criança não confirma nem descarta nada sozinha — assim como acontece na versão adulta, que abordamos no artigo sobre fascite plantar bilateral.

📖 O que a fonte médica diz — e o que isso significa na prática

“Sever’s disease, or calcaneal apophysitis, is the primary cause of heel pain in pediatric patients between the ages of 8 and 15 years. (…) This injury mainly occurs during puberty with an open growth plate in the immature calcaneus. (…) No long-term effects have been associated with Sever’s disease.”
— Ramponi & Baker, Advanced Emergency Nursing Journal, 20191

Traduzindo para o português do dia a dia:

Entre os 8 e os 15 anos, quando uma criança reclama de dor no calcanhar, a causa número um não é fascite plantar — é a doença de Sever. Ela acontece porque, nessa idade, o osso do calcanhar ainda tem uma “faixa de crescimento” aberta, uma região de cartilagem mole que continua alongando o osso. Enquanto essa faixa está aberta, ela é o elo mais frágil do pé, e correr e saltar repetidamente a irritam.

A parte que costuma tranquilizar os pais: os estudos não associam nenhuma sequela de longo prazo à doença de Sever. Quando a faixa de crescimento se fecha, por volta dos 14 aos 15 anos, o problema deixa de existir.

O que isso não significa: não significa que a dor possa ser ignorada. “Autolimitada” quer dizer que essa condição específica passa sozinha — e só um profissional pode confirmar que é ela, e não outra coisa.

Quando a fascite plantar realmente aparece em adolescentes

A partir do momento em que a placa de crescimento do calcâneo se fecha, o cenário muda. O pé passa a se comportar biomecanicamente como um pé adulto, e as condições típicas do adulto se tornam possibilidades reais. Materiais de educação em saúde de podologia observam justamente isso: em adolescentes mais velhos, a dor no calcanhar pode ter como causa fascite plantar, tendinite, bursite, contusões ósseas ou fraturas2.

Alguns cenários tornam a fascite plantar mais plausível em um adolescente:

  • Aumento brusco de carga de treino. Entrada em uma equipe competitiva, pré-temporada intensa ou início de corrida de rua sem progressão gradual.
  • Sobrepeso associado a longos períodos em pé. Adolescentes que começam a trabalhar em pé, por exemplo, em lojas ou lanchonetes.
  • Calçado inadequado ou muito desgastado. Tênis sem suporte usado até o solado ficar liso é um fator recorrente.
  • Panturrilha muito encurtada. A cadeia posterior tensa transfere carga extra para a fáscia plantar.

O sintoma que mais aponta para fascite plantar, em qualquer idade, é a dor nos primeiros passos ao acordar, que melhora depois de alguns minutos caminhando e volta ao fim do dia. Se você quer entender a fundo o mecanismo da condição, nosso guia sobre o que é fascite plantar explica cada etapa.

Vale repetir: mesmo quando todos os sinais parecem apontar para fascite plantar em um adolescente, quem faz o diagnóstico é o profissional de saúde. Em pacientes ainda em crescimento, o leque de diagnósticos diferenciais é maior do que em adultos.

Outras causas de dor no calcanhar em crianças que não podem ser ignoradas

Este é o trecho mais importante do artigo, e o motivo pelo qual insistimos tanto na consulta. Um estudo retrospectivo de um hospital pediátrico americano revisou radiografias de 98 crianças que tinham recebido diagnóstico clínico de apofisite do calcâneo. Em 5,1% delas, a radiografia revelou outra coisa: cistos ósseos no calcâneo, um fibroma não ossificante na tíbia e fraturas por estresse6.

O detalhe que mais chama atenção nesse estudo é que nenhum sinal da história clínica ou do exame físico permitiu prever quais crianças teriam a radiografia alterada. Ou seja, os casos “diferentes” não pareciam diferentes por fora. Foi exatamente por isso que os autores concluíram que a radiografia simples se justifica como triagem em criança com dor no calcanhar.

Fratura por estresse do calcâneo

Aparece em crianças e adolescentes que aumentaram muito a carga de treino. A dor tende a ser progressiva, piora de forma constante com a atividade e não alivia bem com o repouso curto.

Cisto ósseo e outras lesões ósseas

São achados raros, mas foram detectados justamente em crianças que pareciam ter apenas apofisite. Costumam ser silenciosos até que a dor apareça, e só a imagem revela.

Infecção óssea (osteomielite)

Rara, porém séria. Em geral acompanha sinais mais evidentes, como febre, vermelhidão, calor local e dor que não dá trégua nem em repouso. Nesse cenário, a avaliação é urgente.

Tendinite de Aquiles e bursites

Mais comuns em adolescentes que já passaram do pico do estirão, causam dor na parte de trás do calcanhar e podem ser confundidas com a doença de Sever no exame superficial.

⚠️ Reforçando o aviso de saúde: nada do que está escrito acima serve para diagnosticar seu filho. Este artigo é um material informativo, não uma consulta. Dor no calcanhar em criança ou adolescente sempre merece avaliação de um pediatra ou ortopedista pediátrico, mesmo quando parece leve, mesmo quando “passa com o repouso” e mesmo quando tudo indica ser doença de Sever. Autotratar em casa — com analgésicos por conta própria, palmilhas compradas sem indicação ou massagens agressivas — pode atrasar a identificação de um problema que precisa de outro tipo de cuidado.

O que os estudos mostram sobre tratamento

Assumindo que o diagnóstico de doença de Sever já foi confirmado por um profissional, a boa notícia é que o tratamento é conservador, ou seja, não cirúrgico. Uma revisão sistemática publicada em 2024 no Journal of Clinical Medicine analisou oito estudos randomizados e concluiu que o tratamento conservador é eficaz para aliviar os sintomas, sendo as opções mais estudadas as palmilhas, os exercícios terapêuticos, o Kinesio taping e as órteses de pé7.

Um dos estudos mais interessantes sobre o tema é um ensaio clínico randomizado holandês que comparou três condutas em 101 crianças de 8 a 15 anos, ao longo de dez semanas8:

  • Espera vigiada (ajuste de atividade e acompanhamento, sem intervenção específica);
  • Calcanheira de elevação (uma palmilha que eleva ligeiramente o calcanhar dentro do tênis);
  • Fisioterapia com exercícios excêntricos supervisionados.

O resultado surpreende: as três condutas produziram melhora clinicamente relevante e estatisticamente significativa da dor, sem diferença relevante entre elas ao final do acompanhamento. A calcanheira trouxe satisfação maior já em seis semanas, e a fisioterapia melhorou a percepção dos pais sobre a evolução, mas ao final o desfecho de dor foi semelhante. Os autores concluíram que o médico deve decidir junto com a família qual caminho seguir.

Outro ensaio randomizado, com 208 crianças de 9 a 12 anos, comparou palmilhas sob medida com calcanheiras de prateleira e encontrou melhora nos dois grupos, com vantagem para as palmilhas personalizadas9. É um dado relevante, mas que reforça o mesmo ponto: palmilha sob medida pressupõe avaliação profissional prévia.

Sobre o retorno ao esporte, um levantamento de dez anos em uma academia de futebol de base na Alemanha registrou tempo médio de retorno ao jogo de aproximadamente 61 dias, com recuperação mais lenta em quem já havia tido o problema antes5. É uma expectativa de prazo útil para pais e treinadores calibrarem a paciência.

O que os pais podem fazer — e o que não fazer

Enquanto a consulta não chega, ou como apoio ao que o profissional orientou, algumas atitudes fazem diferença.

pai e filho adolescente avaliando o desgaste do tênis esportivo em casa

O que ajuda

  • Levar a queixa a sério desde a primeira vez. Materiais de educação em saúde de podologia são categóricos: dor no pé nunca é normal, e criança não deve jogar sentindo dor2.
  • Observar e anotar o padrão. Em que momento dói, quanto tempo dura, se melhora com repouso, se há mancar pela manhã seguinte ao jogo. Essa descrição é ouro na consulta.
  • Reduzir o impacto temporariamente. Trocar parte dos treinos de corrida e salto por atividades de menor impacto, sempre com aval do profissional.
  • Cuidar do calçado do dia a dia. Tênis com bom amortecimento e em bom estado de conservação, sem solado liso.
  • Aplicar gelo após a atividade, se orientado, junto com repouso relativo.

O que não fazer

  • Não insistir para a criança “aguentar” e jogar a partida importante. Esse é um erro apontado explicitamente pelos materiais de orientação a pais2.
  • Não medicar por conta própria. Anti-inflamatórios em crianças exigem prescrição, com dose ajustada ao peso.
  • Não comprar palmilha, tala noturna ou órtese antes do diagnóstico. Acessórios pensados para fascite plantar em adultos não são automaticamente adequados a um pé em crescimento.
  • Não aplicar massagens intensas ou “estalos” no pé da criança. Em uma placa de crescimento inflamada, pressão agressiva piora o quadro.
  • Não esperar meses para procurar ajuda. Quanto mais tarde a avaliação, maior a chance de a criança acabar precisando de imobilização prolongada.

Sinais de alerta que pedem avaliação imediata

Existem situações em que a consulta deixa de ser recomendável e passa a ser urgente. Procure atendimento sem esperar se houver:

  • Dor que acorda a criança durante a noite;
  • Febre associada à dor no calcanhar;
  • Vermelhidão, calor ou inchaço visível na região;
  • Recusa completa em apoiar o pé no chão;
  • Dor que surgiu logo após queda, torção ou trauma direto;
  • Perda de peso, cansaço extremo ou palidez associados ao quadro;
  • Dor que não melhora nada após duas semanas de redução de atividade.

Nenhum desses sinais é típico da doença de Sever, e todos apontam para a necessidade de investigar outras causas.

Conclusão: a pergunta certa não é “é fascite plantar?”

Voltando à pergunta que abriu este texto: a fascite plantar em crianças existe, mas raramente é a explicação para a dor no calcanhar antes dos 15 anos. A causa mais provável nessa faixa etária é a doença de Sever, uma inflamação da placa de crescimento do calcâneo que é benigna, autolimitada e responde bem a condutas conservadoras simples.

Mas a conclusão mais útil não é o nome do diagnóstico — é o caminho. A pergunta certa que um pai ou mãe deve fazer não é “será que é fascite plantar?”, e sim “quando eu levo essa criança para ser avaliada?”. A resposta, com base em tudo o que a literatura mostra, é: logo. Porque a mesma dor que na maioria das vezes é um problema passageiro do crescimento pode, em uma minoria de casos, ser um sinal de algo que precisa ser tratado de outra forma — e não existe jeito de saber pela descrição do sintoma.

Perguntas Frequentes

Fascite plantar em crianças existe mesmo?

Existe, mas é rara. A fáscia plantar de uma criança é mais elástica e resistente do que a de um adulto, e o desgaste por sobrecarga repetida ao longo de anos — principal mecanismo da fascite plantar — simplesmente ainda não teve tempo de acontecer. Na faixa dos 8 aos 15 anos, a causa mais comum de dor no calcanhar é a doença de Sever (apofisite do calcâneo), não a fascite plantar. Em adolescentes mais velhos, já com a placa de crescimento fechada, a fascite plantar passa a ser uma possibilidade mais realista.

Qual a diferença entre fascite plantar e doença de Sever?

A localização da dor é a pista mais útil. Na fascite plantar, a dor fica na sola do pé, perto da borda interna do calcanhar, e costuma ser pior nos primeiros passos da manhã. Na doença de Sever, a dor fica atrás ou embaixo do calcanhar, na região da placa de crescimento, piora durante e depois do esporte e responde ao chamado teste de compressão, quando o médico aperta as laterais do calcanhar. Só um profissional pode confirmar o diagnóstico.

A doença de Sever deixa alguma sequela no pé da criança?

Segundo a literatura médica revisada, não foram associados efeitos de longo prazo à doença de Sever. É uma condição autolimitada: ela tende a desaparecer quando a placa de crescimento do calcâneo se fecha, o que costuma ocorrer por volta dos 14 aos 15 anos. Isso não significa ignorar a dor, porque outras causas mais sérias precisam ser descartadas por um profissional.

Posso comprar palmilha ou calcanheira para meu filho por conta própria?

O ideal é que a indicação venha de um pediatra, ortopedista pediátrico ou fisioterapeuta que examinou o pé da criança. Estudos randomizados mostram que calcanheiras de elevação e palmilhas ajudam a reduzir a dor na doença de Sever, mas o mesmo estudo mostrou que a simples redução de atividade também funciona. Comprar um acessório antes do diagnóstico pode mascarar um problema diferente, como uma fratura por estresse ou um cisto ósseo.

Quando a dor no calcanhar do meu filho é sinal de alerta?

Procure avaliação com prioridade se houver: dor que acorda a criança à noite, febre, vermelhidão ou inchaço no calcanhar, dor após uma queda ou torção, recusa em apoiar o pé no chão, perda de peso sem explicação ou dor que não melhora após duas semanas de repouso relativo. Esses sinais não são típicos de doença de Sever e exigem investigação.

A criança precisa parar totalmente o esporte?

Nem sempre. A conduta mais comum é reduzir o volume e a intensidade das atividades de impacto até a dor ceder, e não a interrupção total. Em um estudo com atletas de base de futebol, o tempo médio até o retorno ao jogo foi de cerca de dois meses, e quem já tinha tido o problema antes demorou mais para voltar. Quem define esse ajuste é o profissional que acompanha a criança.

Sobre a autora

Beatriz Lessa, autora do Sem Fascite Beatriz Lessa — Criadora de conteúdo sobre saúde e bem-estar dos pés, com foco em fascite plantar e dor no calcanhar. Não é médica, fisioterapeuta ou ortopedista. Foi ao perceber que praticamente todo o conteúdo em português sobre dor no calcanhar em crianças tratava o assunto como se fosse fascite plantar de adulto que decidi ir atrás dos artigos científicos originais e reunir aqui, em linguagem simples, o que a literatura médica de fato descreve sobre apofisite do calcâneo e sobre os diagnósticos que precisam ser descartados. Pesquisa e reúne informações baseadas em fontes médicas citadas para ajudar famílias a chegarem melhor informadas à consulta. Todo o conteúdo clínico publicado aqui é baseado em fontes citadas — não substitui consulta com pediatra, ortopedista pediátrico ou fisioterapeuta. Sobre mim →

Referências
1 Ramponi DR, Baker C. Sever’s Disease (Calcaneal Apophysitis). Adv Emerg Nurs J, 2019 (PubMed)  |  2 Don’t Ignore Your Kid’s Heel Pain — Foot Health Facts  |  3 Wiegerinck JI et al. Incidence of calcaneal apophysitis in the general population. Eur J Pediatr, 2014 (PubMed)  |  4 Calcaneal Apophysitis (Sever’s Disease) — Foot Health Facts  |  5 Belikan P et al. Incidence of calcaneal apophysitis and return-to-play in adolescent athletes. J Orthop Surg Res, 2022 (PubMed)  |  6 Rachel JN et al. Is radiographic evaluation necessary in children with a clinical diagnosis of calcaneal apophysitis? J Pediatr Orthop, 2011 (PubMed)  |  7 Hernandez-Lucas P et al. Conservative Treatment of Sever’s Disease: A Systematic Review. J Clin Med, 2024 (PubMed)  |  8 Wiegerinck JI et al. Treatment of Calcaneal Apophysitis: Wait and See vs Orthotic Device vs Physical Therapy — RCT. J Pediatr Orthop, 2016 (PubMed)  |  9 Alfaro-Santafé J et al. Custom-Made Foot Orthoses vs. Heel-Lifts in Children with Calcaneal Apophysitis — RCT. Children (Basel), 2021 (PubMed)  |  10 Tu P. Heel Pain: Diagnosis and Management. Am Fam Physician, 2018 (PubMed)

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