📅 Publicado em 15/07/2026 · Revisão editorial: julho de 2026
“Minha avó, de 74 anos, começou a sentir uma dor forte no calcanhar bem nos primeiros passos ao levantar da cama — e por semanas, ninguém em casa sabia dizer se aquilo era só ‘coisa da idade’ ou algo que precisava de tratamento.”
Por que a fascite plantar é mais comum em idosos
A fascite plantar é a inflamação (ou, em quadros mais duradouros, a degeneração) da fáscia plantar, aquela faixa espessa de tecido que liga o calcanhar aos dedos e sustenta o arco do pé a cada passo1. Ela pode acontecer em qualquer idade, mas alguns fatores relacionados ao envelhecimento ajudam a explicar por que essa dor aparece com mais frequência depois dos 60 anos.
Com o passar dos anos, os tecidos do corpo perdem parte da elasticidade e da capacidade de se regenerar rapidamente — e isso vale também para a fáscia plantar. Estudos sobre fatores de risco para fascite plantar apontam a idade como uma variável relevante, ao lado de outros fatores como tempo em pé, tipo de calçado e peso corporal3,4. Uma fáscia menos elástica absorve pior o impacto do dia a dia e fica mais suscetível a microlesões que, com o tempo, geram dor persistente.
O papel do coxim adiposo do calcanhar
Outro ponto pouco conhecido, mas importante, é o coxim adiposo do calcanhar — aquela “almofada” natural de gordura que fica embaixo do osso do calcanhar e amortece o impacto a cada passada. Com o envelhecimento, esse coxim tende a perder espessura e elasticidade, o que reduz a proteção natural do calcanhar e pode tornar a dor mais intensa mesmo em atividades simples, como caminhar dentro de casa1,5.
Some a isso o fato de que muitos idosos convivem com outras condições que afetam os pés — como diabetes, artrite e alterações na circulação — e fica mais fácil entender por que a fascite plantar em idosos costuma exigir um olhar mais cuidadoso do que em pessoas mais jovens, tanto no diagnóstico quanto no tratamento.
Sintomas que merecem atenção redobrada

O sintoma clássico da fascite plantar é uma dor em pontada na base do calcanhar, mais forte logo nos primeiros passos pela manhã ou depois de ficar muito tempo sentado, que tende a melhorar um pouco com o movimento e pode voltar a piorar ao final do dia2. Em idosos, esse padrão costuma se repetir, mas com um detalhe importante: como várias condições comuns na terceira idade também causam dor nos pés, é preciso ter atenção redobrada para não confundir os quadros.
Neuropatia diabética, artrite, tendinites e problemas de circulação podem gerar sintomas parecidos, como formigamento, dormência ou dor fora do padrão típico da fascite plantar. Por isso, sinais como dor que não melhora ao longo do dia, dor nos dois pés, formigamento constante ou mudança na cor e temperatura da pele merecem ser levados a um médico, já que podem indicar outra causa por trás do desconforto.
Vale lembrar também que a percepção de dor pode ser diferente em idosos, especialmente com outras condições associadas. Por isso, mesmo diante de uma dor “leve”, não convém adiar a avaliação, principalmente se ela já interfere na forma de caminhar.
Cuidados no tratamento conservador
A boa notícia é que a fascite plantar, inclusive em idosos, costuma responder bem a medidas conservadoras — ou seja, tratamentos que não envolvem cirurgia2,5. Entre as abordagens mais citadas na literatura médica estão o repouso relativo, o uso de calçados com bom amortecimento e suporte de arco, palmilhas ou órteses noturnas, aplicação de gelo e exercícios de alongamento para a fáscia plantar e o tendão de Aquiles.
O ponto de atenção para o público idoso é a forma como esses cuidados são aplicados. Alongamentos e exercícios que seriam simples para uma pessoa mais jovem podem exigir adaptações quando há rigidez articular, artrite ou menor equilíbrio — por isso a orientação de um fisioterapeuta antes de começar qualquer rotina de exercícios é ainda mais importante nessa fase da vida.
Manter o peso corporal em uma faixa saudável também aparece como fator associado ao risco de fascite plantar3,4, mas qualquer mudança de alimentação ou atividade física em idosos deve ser conversada com o médico responsável, considerando o quadro de saúde como um todo.
Cuidado com anti-inflamatórios e polifarmácia

É comum que o alívio da dor da fascite plantar passe, em algum momento, pelo uso de anti-inflamatórios. Só que, em pessoas idosas, esse é justamente um dos pontos que pede mais cautela. Com o avanço da idade, é natural que a função renal e o metabolismo do fígado sofram alterações, o que muda a forma como o corpo processa certos medicamentos — inclusive os anti-inflamatórios de uso mais popular.
Some a isso a chamada polifarmácia: muitos idosos já tomam remédios contínuos para pressão alta, diabetes, colesterol ou problemas cardíacos, e alguns anti-inflamatórios podem interagir com esses medicamentos, aumentando o risco de efeitos colaterais como problemas gástricos, alterações na pressão arterial ou sobrecarga renal. Por isso, o uso de qualquer anti-inflamatório — mesmo os de venda livre — deveria sempre passar pelo crivo do médico que acompanha o idoso, e não ser decidido por conta própria.
Existem, felizmente, outras formas de aliviar a dor da fascite plantar que costumam ser discutidas com a equipe de saúde antes de se recorrer a medicamentos, como compressas de gelo, repouso adequado, ajustes no calçado e fisioterapia. A escolha entre essas opções e o uso (ou não) de anti-inflamatórios é uma decisão que cabe ao ortopedista ou clínico responsável, levando em conta todo o histórico de saúde da pessoa.
Risco de queda e mobilidade
Um aspecto que costuma passar despercebido é a relação entre a dor da fascite plantar e o risco de quedas em idosos. Quando o calcanhar dói a cada passo, é natural que a pessoa comece a mancar ou a alterar a forma de pisar para evitar a dor — e essa mudança na maneira de caminhar pode comprometer o equilíbrio, especialmente em quem já tem alguma fragilidade muscular ou articular.
Como quedas em idosos já são, por si só, uma preocupação importante de saúde, qualquer condição que afete a marcha — incluindo a fascite plantar — merece ser tratada com atenção redobrada, e não apenas “aguentada” até passar sozinha. Manter a mobilidade com segurança pode envolver o uso de calçados adequados dentro e fora de casa, apoio para caminhar quando recomendado por um profissional, e ambientes domésticos com menos obstáculos no caminho.
Por isso, quando a dor no calcanhar começa a mudar a forma como um idoso caminha ou faz a pessoa evitar sair de casa, esse já é, por si só, um motivo para buscar avaliação médica — mesmo que a dor pareça “suportável”.
Quando procurar o ortopedista com urgência
Na maioria dos casos, a fascite plantar não é uma emergência médica, mas existem sinais que pedem avaliação mais rápida, principalmente em pessoas idosas. Vale procurar um ortopedista sem demora se a dor for muito intensa, se surgir de forma repentina após algum trauma, se vier acompanhada de inchaço importante, vermelhidão ou calor no calcanhar, ou se houver febre associada.
Também merece atenção a dor que não melhora depois de duas semanas de cuidados básicos, a dor que já limita a caminhada ou aumenta o risco de quedas, e qualquer formigamento ou dormência associados — sinais que podem indicar outra causa além da fascite plantar simples. Em idosos com diabetes, a atenção deve ser ainda maior, já que problemas nos pés podem evoluir de forma mais silenciosa.
Sociedades médicas como a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia reforçam a importância de um diagnóstico correto antes de tratar qualquer dor no pé6, e isso vale ainda mais para o público idoso, que costuma ter mais de uma condição de saúde ao mesmo tempo. Um ortopedista poderá avaliar com exame físico — e, se necessário, exames de imagem — se a dor é realmente fascite plantar ou se há outro fator envolvido, definindo o tratamento mais seguro para cada caso.
Perguntas frequentes
Fascite plantar em idosos tem cura?
Na maioria dos casos, sim — a fascite plantar responde bem a tratamentos conservadores, mesmo em pessoas idosas, embora a recuperação possa ser um pouco mais lenta do que em pacientes mais jovens2,5. O acompanhamento de um ortopedista ou fisioterapeuta é importante para ajustar o tratamento às demais condições de saúde da pessoa.
É normal sentir dor no calcanhar só por causa da idade?
A dor no calcanhar é mais comum com o avançar da idade, entre outros motivos porque a fáscia plantar e o coxim adiposo do calcanhar perdem parte da elasticidade ao longo dos anos1,3. Mas “mais comum” não é o mesmo que “normal” ou “sem solução” — vale sempre procurar um médico para confirmar a causa e iniciar o tratamento adequado.
Idoso com fascite plantar pode fazer alongamento sozinho?
O ideal é que os exercícios de alongamento sejam orientados por um fisioterapeuta, que pode adaptar os movimentos considerando equilíbrio, rigidez articular e outras condições de saúde da pessoa. Fazer alongamentos sem orientação pode, em alguns casos, aumentar o risco de quedas ou lesões.
Quais remédios são seguros para idosos com fascite plantar?
Isso varia muito de pessoa para pessoa, especialmente por causa da polifarmácia e de possíveis alterações na função renal comuns na terceira idade. Por isso, qualquer anti-inflamatório ou analgésico — mesmo os de venda livre — deve ser indicado e acompanhado pelo médico que conhece o histórico de saúde do idoso.
Fascite plantar pode causar quedas em idosos?
De forma indireta, sim. A dor no calcanhar pode levar a pessoa a mancar ou mudar a forma de caminhar para evitar o desconforto, o que pode afetar o equilíbrio e aumentar o risco de quedas. Por isso, mudanças na marcha relacionadas à dor no pé merecem avaliação médica o quanto antes.
1 StatPearls — Plantar Fasciitis (NCBI Bookshelf, National Library of Medicine, 2023) | 2 Diagnosis and management of plantar fasciitis (Am Fam Physician / PubMed, 2014) | 3 Risk factors for Plantar fasciitis: a matched case-control study (PubMed, 2003) | 4 The Prevalence and Risk Factors of Plantar Fasciitis Amongst the Population of Jazan (PubMed, 2022) | 5 Cleveland Clinic — Plantar Fasciitis | 6 SBOT — Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia
Última revisão editorial: julho de 2026. Conteúdo informativo — não substitui avaliação médica especializada.
Beatriz Lessa — Criadora de conteúdo sobre saúde e bem-estar dos pés, com foco em fascite plantar e dor no calcanhar. Passou a estudar a fundo o tema depois que a própria avó, de 74 anos, começou a sentir dor no calcanhar ao se levantar da cama e a família não sabia se aquilo era “coisa da idade” ou um problema que precisava de tratamento. Pesquisa e reúne informações baseadas em fontes médicas e experiências reais para ajudar quem enfrenta essa dor no dia a dia. Todo o conteúdo clínico publicado aqui é baseado em fontes citadas — não substitui consulta com ortopedista ou fisioterapeuta.